Publicado na edição número 55 (novembro de 2006) da revista de circulação nacional Photos & Imagens - A revista do mercado fotográfico

Fazem-se fotos como antigamente!

Na serra gaúcha a tradição é posar de colono para as lentes do “photógrapho” Germano Schüür

ALCIDES MAFRA

Para Germano Schüür, photographia se escreve assim mesmo, com o “ph” no lugar dos efes. É que o fotógrafo e biólogo, de 61 anos de idade, responde com os filhos pela atração mais procurada no Parque Aldeia do Imigrante, um projeto turístico plantado na serra gaúcha, em Nova Petrópolis. Nessa charmosa cidade germânica, longe 100 quilômetros de Porto Alegre, Schüür pratica, há 21 anos, a fotografia à moda antiga.

Menino caracterizadoO parque, uma área de dez hectares, abriga a réplica de uma aldeia de imigrantes alemães, dos que, entre os anos de 1875 e 1910, colonizaram aquela região. Germano e os filhos dão o toque especial nessa caracterização, fotografando as pessoas em visita pelo local com trajes da época e ampliando as imagens à maneira das velhas fotografias de família. Ou seja, à moda antiga.

Não bastasse isso para justificar o uso do arcaico “photographia”, Germano carrega o bastão de uma longa tradição familiar. Seu avô materno, Hermann, fotografou na Alemanha em fins do século 19. Mudou-se para o Brasil e aqui viu o genro, Nicklaas, seguir o mesmo ofício. Este, por sua vez, encaminhou o filho, na gaúcha Cruz Alta. Germano cresceu tirando fotos, observando a natureza e fuçando pequenas criaturas. Formou-se biólogo e seguiu fotografando. Atualmente, é professor de biologia e de fotografia, responsável pelo Curso Superior de Formação Específica em Fotografia da Universidade de Caxias do Sul, cidade onde mora. Nessa mesma universidade, dá aulas de Fotografia Aplicada à Biologia no curso de Ciências Biológicas.

Com tanta ocupação, professor Schüür precisou recorrer à família para atender a um convite da administração municipal de Nova Petrópolis, feito em 1985. Pediram que ele fotografasse os turistas em trajes típicos na Aldeia do Imigrante, durante o Festival do Folclore. “Achando que turistas não teriam interesse em se fotografar em cores e com as coloridas e extravagantes roupas folclóricas, sugeri a foto à moda antiga, que resgataria em tons sépia o figurino dos imigrantes da época da aldeia”, lembra. Como a idéia pegou, a administração quis torná-la permanente e cedeu uma casa no local para instalação do estúdio. Aceitar a oferta exigiria sacrifícios: “Coloquei a questão para toda a família. Reuni a turma e ponderei que a opção representaria uma alternativa de vida pela qual abriríamos mão de todos os nossos fins de semana. Para amenizar o peso da decisão, brinquei que, enquanto amigos têm incomodações na administração e manutenção de seus sítios de lazer, nós teríamos uma chácara onde a grama estaria bem cortada e os peixes, galinhas, gansos e pombos sempre bem alimentados”, conta.

Sabine e Daniel, produtora e fotógrafoOs filhos Daniel, de 27 anos, e Sabine, 26, abraçaram a idéia, assim como a esposa Eleusa. “Desde cedo minha filha tomava conta da produção e divertimento das crianças, fazendo, com o tempo, que virasse uma excelente profissional como produtora e modelo fotográfico e mais tarde até ajudou na sua descoberta vocacional. Hoje ela é psicóloga e eventualmente me ajuda no estúdio. Infelizmente minha esposa nos deixou cedo, por ter contraído grave enfermidade, o que fez com que bem jovens meus filhos tivessem que assumir as funções profissionais da mãe e ajudar na foto à moda antiga. Daniel fez Arquitetura e hoje se dedica exclusivamente à fotografia, proporcionando a condição de abrir o estúdio todos os dias da semana. E assim, seguindo o exemplo do pai, um arquiteto virou fotógrafo”, orgulha-se.

No início, o figurino era composto por peças emprestadas de conhecidos e amigos, garimpadas nos baús de avós e bisavós. Embora garantisse autenticidade, a solução não se mostrou prática, na medida em que as roupas, muito antigas, rasgavam com facilidade na hora de vestir. O jeito foi pesquisar em fotos antigas do acervo da cidade e no álbum do avô Hermann para copiar o vestuário dos imigrantes e produzir um guarda-roupa mais funcional. Com o uso de fitas velcro, fica fácil, agora, transformar qualquer turista em colono alemão.

Família Bertelli“A aventura desta transposição temporal começa no momento em que a equipe de produção inicia a sua tarefa de transformar apressados cidadãos do século 21 em comportados e tímidos colonizadores do fim do século 19, com suas mais belas vestimentas usadas apenas para ir à missa ou mesmo fazer a tradicional fotografia da família, com ‘photographos’ viajantes”, descreve Germano. As fotos são tomadas com luz natural em frente ao estúdio, construído no estilo enxaimel das casas coloniais alemãs, tendo ao fundo a mata nativa preservada. Ajuda na composição rodas de carros de boi, chapéus de feltro ou palha, óculos redondinhos, suspensórios, roupas riscadas de algodão, fardamentos paramilitares de antigos “reis do tiro”, vestido de noiva antiga, espadas, armas de fogo primitivas, garrafões de palha para vinho, batina, sombrinhas, cachimbos, bengalas, violino, trombone, alaúde, cestas de uvas, cestas de flores do campo e uma infinidade de outros acessórios. “A produção da foto à moda antiga deve ser muito rápida, pois trabalhamos muito com excursões de turistas onde sempre tem um guia da companhia apressando seus conduzidos. Todo o processo leva aproximadamente uns 15 minutos, incluindo o preenchimento do pedido e o pagamento dos trabalhos. Enviamos as fotos sempre na sexta-feira seguinte pelos correios como encomenda registrada. Os custos totais variam de R$ 35 a R$ 70 com a produção e custos de envio inclusos. Os formatos das fotos são 18x24cm, 22x30cm e 30x40cm em papel fosco, tons sépia, vinheta oval, arabescos laterais e banner com inscrição em letra gótica do nome da família ou das pessoas fotografadas”.

Sabine, Daniel e GermanoJá são duas décadas de trabalho bem sucedido. A admiração das pessoas pela fotografia à moda antiga é tanta, que muitos levam a família anualmente para novos retratos. Alguns casais posam desde quando eram namorados e agora trazem os filhos adolescentes para manter a fotografia “atual”. Há clientes ilustres também: os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, em 1996, e o alemão Roman Herzog, em 1995. À exceção de um, todos os governadores gaúchos desde 1991 passaram pelo estúdio da família Schüür. Germano não pestanejou, mandou logo inscrever uma frase sobre essa galeria de autoridades: “Para ser governador do Rio Grande, fotografe aqui!”. “Confirmando que só a foto é à moda antiga, algumas pessoas trazem suas duas ou mais famílias para serem fotografadas. Outras trazem sua companheira para fazer a sonhada foto de casamento com vestido de noiva (pelo menos à moda antiga). Coisas dos tempos modernos!”.

Na foto: A família Schüür - Sabine, Daniel e Germano em cores para o cartão de Natal de 2005


O photographo GermanoDigital à moda antiga

No estúdio da família Schüür em Nova Petrópolis há uma antiga “machina photographica” da R.A. Goldmann – Fabrik Photogr. Apparate, produzida em Viena, Áustria, em 1858, herança de um dos pioneiros fotógrafos de Caxias do Sul, Clemente Tomazoni. Mas ela serve apenas de decoração. Germano fotografa mesmo é com uma Nikon D-100. Há cinco anos ele produz as fotos à antiga com equipamento digital, fazendo depois alguns ajustes e aplicando arabescos e banner com uso do Photoshop. O programa da Adobe também é utilizado para inserir rostos ausentes em “dublês de corpo”, escalados entre os que passeiam no local. “Pelo correio eles remetem diversas fotos 3x4 do faltoso. Meu avô já fazia isso, recortando e colando cabeças sobre o corpo de dublês no século 19”, compara.

Após passar 16 anos debruçado sobre químicos, o professor recebeu de braços abertos a nova tecnologia. “Acredito que todos saibam qual cheiro lembra o gás sulfídrico, proveniente da combinação do ácido acético com o monossulfeto de sódio usados nos processos convencionais de viragem sépia”, diz, referindo-se ao insuportável odor de ovo podre. “Sem falar nos ainda não bem estudados efeitos na saúde humana do branqueador constituído pelo ferrocianeto e brometo de potássio”, completa, citando também a escassez e o preço dos insumos: “Fica impossível repassá-los ao nosso produto final e ainda ter um preço competitivo. E, cá entre nós, laboratório de P&B convencional é um quarto escuro, antagônico a todos os pressupostos da fotografia: emoção, liberdade e luz!”.

Na foto: Germano na porta do seu "studio hotographico" em Nova Petrópolis


 
Família com cachorro virtualMelhor amigo do colono

Recentemente, um novo elemento tem sido inserido nas fotos dos colonizadores modernos. Cães abandonados, entregues à Sociedade Amigos dos Animais, de Caxias do Sul, são fotografados e colocados digitalmente nas fotos. O trabalho de modelo rende aos vira-latas um pacote de ração. Além desse cachê, se derem sorte, podem ser adotados pelas famílias fotografadas. A novidade está fazendo sucesso. Na foto, o cãozinho Bruno aparece faceiro à frente da sua família de mentirinha.

Fotos de Samara Rambo e Germano Schüür

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