4.3.2.1 - Poluição por Metais Pesados

A atividade industrial humana tem causado a introdução no meio aquático de um grande número de metais pesados. Eles são descarregados na natureza através dos efluentes de indústrias de material elétrico, químicas e farmacêuticas; através de resíduos da mineração, de indústrias de papel, de cosméticos, de portos de minérios, etc. A poluição pelo petróleo também introduz metais pesados como o níquel, cobalto, manganês e vanádio. Muitos pesticidas, especialmente os empregados contra os fungos, possuem metais pesados como o mercúrio, o zinco e o cobre. Dentre todos os citados, estudaremos:

    • Mercúrio: Através da contaminação de produtos alimentares marinhos, de 1953 a 1960, o metil-mercúrio causou 121 vítimas em vilas ao redor da baía de Minamata, no Japão. Vinte e duas crianças foram envenenadas na vila de Niigata, também no Japão. No Iraque, em fevereiro de 1972, houve uma intoxicação em massa por mercúrio, quando foram baixadas em hospitais 6.530 pessoas, sendo que destas, morreram 459 pessoas. A contaminação do Iraque se deu pela ingestão de pão preparado com sementes de trigo tratadas com fungicidas metil-mercuriais.

O mercúrio é fornecido aos lagos e rios, principalmente, pelas indústrias de papel e de polpa de madeira, de materiais elétricos, refinarias, fábricas de tintas, pesticidas agrícolas, instituições hospitalares, científicas e odontológicas e queima de óleo e de carvão com pequenas quantidades de mercúrio.

Os sintomas e efeitos do envenenamento por mercúrio são os seguintes: perda da sensibilidade na extremidade das mãos, dos pés e ao redor da boca (parestesia), perda da coordenação no andar (ataxia), problemas com a fonação (disartria), redução da visão e perda da audição. As pessoas que forem contaminadas devem ser acompanhadas pelos médicos por muito tempo, a fim de se verificar se não aparecerão problemas, especialmente no sistema nervoso.

O mercúrio é uma ameaça crescente, pois são produzidas cerca de 9.000 toneladas por ano em toda a Terra e cerca de 5.000 são lançadas nas águas, provenientes da agricultura e da indústria.

- Chumbo: O chumbo interfere nas reações químicas das células dos seres vivos como inibidor, bloqueando a ação das enzimas. Hoje, por ano, cerca de 20.000 toneladas de chumbo são descarregados nos oceanos pelos rios.

Embora não se conheçam ainda os efeitos da exposição crônica a pequenas concentrações de chumbo, apesar de sabermos que o chumbo é um veneno celular cumulativo, são notoriamente conhecidos os sintomas de envenenamento conhecido por Saturnismo, que incluem falta de apetite, fraqueza, apatia, relaxamento de lesões no sistema neuro-muscular, na circulação, no cérebro e no tubo digestivo.

- Cádmio: Atualmente o cádmio está sendo detectado em alimentos como ostras e outros organismos, mas ignora-se os caminhos que ele segue no ambiente. O envenenamento por cádmio, causa uma doença séria e dolorosa, conhecida no Japão como itai-itai.

- Arsênico: Este é encontrado em pequenas quantidades na água e no alimento e cujas fontes principais são pesticidas que contém arsênico e os detergentes que possuem uma forma menos tóxica, o arsenato. Muitos animais e vegetais concentram arsênico em seus tecidos, sendo que alguns deles constituem alimento para o homem.

Apesar de sabermos que o mercúrio, o chumbo, o cádmio, o arsênico, o níquel, o zinco, o cromo, o vanádio, o manganês, são metais tóxicos, persistentes e abundantes no ambiente, necessitamos de maiores informações sobre seus efeitos no meio e sua toxicidade no homem a curto e a longo prazo.

4.3.2.2 - Poluição por Agentes Eutroficantes

Já vimos em "Efeitos Ecológicos da Poluição" que a eutroficação (eutrofização, para alguns autores) ou fertilização das águas pelos sais minerais, constitui uma das mais graves conseqüências da poluição.

Os vegetais verdes necessitam, além de substâncias essenciais à fotossíntese, pequenas quantidades de outros elementos tais como o nitrogênio, o fósforo e o potássio, que, geralmente, só podem ser assimilados em forma de sais (nitratos e fosfatos).

No ambiente aquático, as algas têm a sua proliferação limitada pela falta destes sais. Por conseguinte, a elevação intencional ou acidental de concentração destes elementos, produz aumento do número de algas. Esses fertilizantes podem ser adicionados diretamente na forma de nitratos e fosfatos, quando da inclusão de adubos e detergentes fosfatados na água, ou, indiretamente, na forma de compostos orgânicos – matéria fecal, que também é um adubo orgânico – os quais, por decomposição biológica, dão lugar à formação de amônia ou nitratos e fosfatos. É por esse motivo que as pequenas lagoas onde são criados patos apresentam intensa coloração verde: os excrementos desses animais fertilizam o meio, causando enorme proliferação de algas microscópicas, comprometendo todo ecossistema pela intensa DBO.

4.3.2.3 - Poluição por Agentes Redutores

Os agentes redutores são compostos químicos "ávidos" de oxigênio, como os sais ferrosos por exemplo. Esses compostos, quando lançados à água, combinam-se rapidamente ao oxigênio dissolvido, provocando assim um "roubo" de oxigênio necessário à respiração dos seres vivos. Trata-se, pois, de uma demanda de oxigênio em que a combinação se faz, geralmente, de maneira espontânea.

4.3.2.4 - Poluição por Pesticidas

Os pesticidas atuam, com grandes prejuízos ecológicos, nos ecossistemas aquáticos. Esses são empregados como fungicidas (contra fungos), algicidas (contra algas), herbicidas (contra ervas daninhas), inseticidas, rodenticidas (contra ratos), etc. Todos eles são altamente tóxicos e podem possuir elevada ação residual. Entre os inseticidas mais perigosos, estão o DDT (diclorodifeniltricloroetano) e o endrin.

As quantidades de pesticidas derramados em doses crescentes nos solos, que em última análise são drenados para os rios, nos pântanos costeiros e nas extensões de água doce ou salobra dos estuários, são arrastados para o alto mar, provocando mortalidade elevada de organismos marinhos. Todos os pesticidas, cuja toxidez pode ser avaliada em laboratório, mostraram ser tóxicas para os crustáceos, os moluscos e os peixes, em doses comparáveis às de seu uso habitual. O presente assunto encontra-se mais detalhado no estudo da "Poluição do Solo".

4.3.2.5 - Poluição por Petróleo

Uma poluição quase especificamente marinha é a que resulta da quantidade crescente de hidrocarbonetos lançados ao mar, que aumenta paralelamente ao desenvolvimento da indústria e do transporte de produtos petrolíferos. Essas substâncias são miscíveis com a água, flutuam na superfície formando um filme de espessura variável e notavelmente estáveis e apenas atacados, muito lentamente, por um número reduzido de organismos microbianos (bactérias decompositoras), o que lhes garante uma existência prolongada, tornando os seus efeitos particularmente perigosos.

Os hidrocarbonetos poluentes dos mares provêm principalmente dos petroleiros que, após terem descarregado o seu conteúdo, enchem seus reservatórios com água, que serve de lastro e garante a estabilidade do barco. Ou da exploração de petróleo na Plataforma Continental, quando há escapes ao nível dos poços que provocam, ao menor acidente, o derramamento de grandes volumes de produtos petrolíferos. Também devemos considerar aqui os acidentes que ocasionalmente ocorrem com os superpetroleiros que nestas oportunidades derramam milhares de toneladas de petróleo ao mar. Das 6,1 milhões de toneladas de petróleo que anualmente vão para o mar, maior contribuição vem dos petroleiros e suas operações - 2,1 toneladas, conforme a Academia Nacional de Ciências dos EUA (um petroleiro moderno expulsa, ao limpar as suas cisternas, entre 3 mil a 5 mil toneladas de água carregada de 100 a 200 toneladas de hidrocarbonetos).

Segundo Wolber, 1969, podemos relacionar tipos diferentes de efeitos do petróleo sobre os seres marinhos, ou seja: adere às guelras (brânquias) dos peixes e os impede de respirar, provocando sua morte por asfixia; adere à microalgas e a microanimais (o zooplâncton) que são comidos pelos peixes, eliminando-os; o óleo adere-se a partículas depositando-se no fundo do mar, cobre os animais que nele vivem, matando-os; o petróleo ou animais solúveis que nele existem podem ser ingeridos por peixes ou por outros animais marinhos comidos pelo homem, dando à sua carne um mau paladar e cheiro forte; o petróleo tende a provocar uma redução do oxigênio interferindo na respiração; não deixa passar a luz, prejudicando a fotossíntese; todos os tipos de petróleo possuem substâncias solúveis tóxicas a inúmeros seres. Não podemos esquecer dos efeitos do petróleo nas aves, uma vez que se adere à sua plumagem, impedindo o vôo e provocando afogamento.

Em janeiro de 1978 o petroleiro "Brazilian Marina" infestou o litoral norte paulista e algumas praias fluminenses com, aproximadamente, 40.000 toneladas de petróleo, cuja mancha atingiu 60 Km de extensão, sendo considerado o maior acidente com um petroleiro nas costas do Atlântico Sul.

4.3.2.6 - Poluição Térmica

Neste caso não é o efeito direto do calor sobre os organismos aquáticos que deve ser mais considerado, mas sim o efeito ecológico resultante da perda de oxigênio pela água sempre que a temperatura é elevada (a solubilidade dos gases na água é inversamente proporcional à sua temperatura). Inúmeras indústrias de petróleo, etc., recorrem ao processo de refrigeração de seu equipamento com águas de rios.

Os cursos de águas lênticas que servem para refrigeração industrial, com o mínimo de gastos, poderiam ser recuperados, quanto ao teor de oxigênio, com a construção de escadarias de ventilação.

4.3.2.7 - Contaminação Fecal e o Grupo Coliforme

O termo grupo coliforme não se refere a um só elemento, mas a um grupo de bactérias que são comuns nos excrementos humanos e de animais. Essas bactérias ocorrem em grande número (100 milhões a 1.000 milhões por grama de fezes) e constituem a chamada flora intestinal. As mais comuns são: Escherichia coli, Aerobacter aerogenes e ainda um grupo de intermediário, Citrobacter.

Sabe-se que pessoas e animais infectados por alguns microorganismos patogênicos também os apresentam no trato intestinal. Estes não são do grupo coliforme por não se apresentarem em indivíduos saudáveis. Por outro lado, os organismos patogênicos não se multiplicam nem se desenvolvem na água por terem perdido seu alimento e as condições ideais de vida, tornando-se assim difícil isolar e identificar diretamente qualquer organismo patogênico na água de consumo humano.

Apesar do grupo coliforme normalmente não afetar a saúde humana (a Escherichia coli, às vezes, pode produzir uma infecção no sistema urinário conhecido como cistite), serve para identificar a presença de organismos de origem intestinal na água.

Assim, quando o grupo coliforme está presente na água, serve como indicador de poluição por esgoto com provável presença de microorganismos patogênicos.

As principais espécies de microorganismos patogênicos encontrados na água são:

    • Eberthela typhosa: bactéria causadora de febre tifóide.
    • Salmonela paratyphi: bactéria causadora da infecção semelhante à febre tifóide, mas de caráter mais benigno.
    • Shigella dysenteriae: bactéria causadora da disenteria bacilar.
    • Entamoeba histolytica: protozoário causador da disenteria amebiana.
    • Vibrio cholerae: bactéria responsável pela cólera.
    • Virus da Hepatite: produz infeção aguda no fígado.
    • Virus da Poliomielite: causador da paralisia infantil.
    • Schistosoma mansoni: helminto, parasita do sistema venoso do homem responsável pela doença conhecida como esquistossomose.

4.3.3 - Poluição do Solo

4.3.3.1 - Despejos Sólidos

Os resíduos sólidos domésticos, comerciais, industriais e das operações agrícolas, apresentam cada mais papéis plásticos, vidros, embalagens, etc. Segundo um grupo de trabalho da Organização Mundial da Saúde, o aumento anula do consumo e despejo desse material quase chega a casa de 2%. Todo esse material cria problemas de coleta, despejo e tratamento, cujos depósitos constituem-se muitas vezes em foco de crescimento de mosquitos, roedores e de outros organismos danosos à saúde humana, sem contar os enormes prejuízos causados na contaminação das águas subterrâneas e ao próprio solo.

A quantidade e composição dos despejos sólidos varia muito de local para local, segundo especialmente o nível de vida e o grau de industrialização da região (do país, etc.). Quanto mais uma região se industrializa, mais se formam resíduos sólidos de origem industrial, comercial ou agrícola.

Podemos considerar dois tipos fundamentais de resíduos sólidos:

  • Resíduos sólidos biodegradáveis: são facilmente decomponíveis, como os resíduos culinários.
  • Resíduos sólidos não biodegradáveis: são os que não se decompõem ou que só se desfazem muito lentamente, por não existirem bactérias decompositoras para muitos compostos sintéticos. Neste caso encontram-se as embalagens de vidro, de plástico, etc.

 

Aterros Sanitários

É prática corrente lançar os despejos sólidos em certas áreas, sem qualquer tratamento prévio. Alguns países usam usinas de incineração para depois aterrar os 20% d resíduos em forma de cinzas que sobram. Outras regiões usam o aterro sanitário como método direto para "eliminar" o resíduo.

Segundo Paraguassú para a construção de um aterro sanitário, devemos proceder da seguinte forma:

1o. - depositar o lixo em um local previamente preparado;

2o. - espalhar e compactar o lixo em camadas de uns 2,5 m de espessura;

3o. - cobrir diariamente o lixo com camadas de terra de no mínimo 15 cm de espessura;

4o. - sofrer diariamente compactação;

5o. - na cobertura final, colocar uma camada mais espessa com no mínimo 60 cm que deverá sofrer nova compactação.

Atualmente, uma tecnologia mais avançada de reutilização, emprega sistemas de prensagem de lixo, com pressões de ordem de 100 a 200 Kg/cm2. Com isso reduz-se o volume de fardos de lixo para ¼ a 1/5 do original. Estes são imersos num banho de asfalto ou de cimento e assim empregados em aterros e na construção civil.

4.3.3.2 - A Degradação pela Erosão

A decomposição da rocha-mãe sob a ação de agentes físicos variados (fatores térmicos, eólicos, pluviométricos, atmosféricos) somados aos agentes químicos e ação dos seres vivos, constituem processos que produzem solos. Em contrapartida, estes podem ser destruídos pelos mesmos agentes dinâmicos, cujo conjunto de fenômenos leva o nome de erosão. Existe uma erosão natural, inevitável, que se efetua em ritmo lento que é compensada pela decomposição da rocha-mãe e por elementos alóctones carreados por forças físicas. Assim, os solos encontram-se em relativo equilíbrio. Paralelamente a esse fenômeno geológico normal, existe uma erosão acelerada, fenômeno artificial, conseqüência dos maus cuidados dispensados aos solos pelo homem. Nesse processo acelerado as perdas já não são compensadas pelas transformações locais do substrato geológico ou pelas contribuições aluviais.

Existem dois tipos de erosão acelerada; a erosão eólica, provocada pelos ventos e a erosão hídrica, provocada por água, principalmente por chuvas violentas que provocam a ruptura dos agregados e dispersão dos cimentos.

A erosão hídrica, mais desastrosa que a erosão causada pelo vento, descama a camada superficial, rica em húmus, sem modificar o aspecto geral ou relevo, durante os primeiros estágios. Em geral pouco visível no início, portanto particularmente perigosa, traduz-se apenas por imperceptíveis modificações na cor dos solos e pelo aparecimento de pedras que permanecem no local, enquanto que os materiais mais finos em que elas estavam imersas vão desaparecendo. O elemento que estabelece a ligação entre os vários constituintes no solo, assim como as partículas finas são retirados, provocando um rápido empobrecimento das terras em elementos nutritivos e uma baixa da capacidade de retenção de água, com todas as conseqüências previsíveis sobre a vegetação, cujo desaparecimento progressivo agrava os efeitos da degradação.

Os efeitos da erosão acelerada são dos mais graves para o homem. Milhares de hectares tornam-se improdutivos anualmente, devido a degradação dos solos causada pela erosão. Para se ter uma idéia da importância do trabalho das águas na erosão, citemos o caso do Amazonas, que lança ao mar, algumas centenas de milhões de toneladas de nutrientes minerais e de matéria orgânica, anualmente. Tais quantidades determinadas nas condições naturais da região, seriam aumentados de forma alarmante, atingindo cifras que nem podemos prever caso o homem viesse interferir na natureza destruindo a floresta em grandes extensões. Além dos prejuízos causados diretamente na degradação dos solos, não devemos esquecer aqueles ocasionados por danos secundários como modificações nos regimes das águas (secas e enchentes), navegação (encalhes-dragagem), modificando de diversos habitats (quebra no equilíbrio ecológico), etc.

A conservação de uma cobertura vegetal natural ou artificial é indispensável à preservação dos solos. Nos EEUU calculou-se que os escoamento da água precisaria de 174.000 anos para retirar das camadas superficiais de um solo coberto de florestas uma espessura de 20 cm; 29.000 anos se se tratasse de um campo; apenas 100 anos de fosse um terreno cultivado segundo métodos racionais, incluindo uma rotação de culturas bem concebida, e somente uns 15 anos no caso de monocultura de milho (Bennett, 1939). Essas cifras se tornam mais impressionantes se nos lembrarmos de que são necessários de 300 a 1000 anos para que se formem 3 cm de solo, ou seja, de 2000 a 7000 anos para que se forme uma camada de aproximadamente 20cm, que constitui um solo arável.

4.3.3.3 - A Poluição pelos Pesticidas

Os venenos que o homem usa para proteger suas colheitas contra roedores, inseto, fungos e bactérias, continuam agindo, às vezes, muito além dos campos de batalha.

Quanto ao uso de pesticidas, demasiados interesses materiais e financeiros - indústria química, produção agrícola - e demasiados sentimentalismos e conclusões apressadas complicaram um problema sobre o qual, no entanto, já se possui atualmente uma série de informações provenientes de um número crescente de experiências e observações.

Hoje, em todo mundo, a agricultura constitui uma área de desastres ecológicos. Lavouras de monoculturas convida um surto de pragas, às quais respondemos com inseticidas que, na maior parte das vezes matam mais insetos inofensivos do que pragas a serem combatidas. Assim, os pesticidas, especialmente os persistentes, simplificam os ecossistemas causando a remoção das defesas naturais de pragas.

Além da instabilidade causada no ecossistema pela simplificação, as pragas, que a primeira vista pereciam controladas, muitas vezes retornam em números maiores do que antes. Isso se deve ao fato de que, os pesticidas selecionam as pragas que já eram persistentes, que por sua vez se multiplicam para formar populações imunes. Como exemplo, podemos citar a mosca doméstica, que hoje resiste ao DDT.

4.3.3.3.1 - Conceito de Pesticida

É um nome geral que designa as substâncias químicas empregadas na luta contra as pragas animais ou vegetais que custam prejuízos ao homem e às suas culturas.

4.3.3.3.2 - Principais Tios de Pesticidas

- A. INSETICIDAS

Os inseticidas conhecidos atualmente não são seletivos, na sua quase totalidade, matando indiscriminadamente todos os insetos, tantos nocivos quanto úteis ou indiferentes.

Lhoste, em 1962, inventariou mais de 150 inseticidas diferentes. Para fins didáticos, dividiremos os inseticidas em 3 grandes grupos, considerando sua natureza química ou sua origem: os inseticidas inorgânicos, feitos principalmente a base de arsênico e flúor; os inseticidas de origem vegetal, principalmente a nicotina, extraída do tabaco, o piretro, extraída de diversos compostos do gênero Chrysanthemum e a rotenona, extraída de diversas papilionáceas; os inseticidas orgânicos sintéticos, os mais comuns hoje em dia, pois são fabricados industrialmente em grande escala e a um preço de custo relativamente baixo. Dos inseticidas orgânicos sintéticos são três dos grupos que merecem destaque:


- GRUPO DOS COMPOSTOS ORGANO-SINTÉTICOS CLORADOS

Estes apresentam em sua estrutura molecular, uma cadeia variável de carbonos ligados por íons de cloro e hidrogênio. Alguns podem caracterizar-se por apresentarem enxofre e oxigênio.

O clorados apresentam um maior poder residual e acumulativo em relação a outros grupos, determinando uma séria limitação no seu emprego, não só pelos seu largo espectro residual, como também pelos problemas crônicos que podem provocar nos organismos vivos. O uso indiscriminado dos clorados afeta significativamente o equilíbrio biológico.

Dos clorados os principais são os seguintes:

DDT (diclodifeniltricloroetano): Inseticida clorado cuja síntese fio realizada pela primeira vez em 1874, pelo químico alemão Othmar Zeidler, mas suas propriedades inseticidas foram descobertas somente em 1939, pelo químico suíço Paul Müller.

O DDT, cuja produção anual em todo mundo ultrapassa 100.000 toneladas, age por contato, penetrando através da cutícula quitinosa do inseto, paralisando os mecanismos respiratórios e interferindo no sistema nervoso. Este inseticida é particularmente tóxico para os vertebrados pecilotermos (peixes, répteis e anfíbios).

A característica principal do DDT é a sua insolubilidade em água e sua solubilidade em gorduras e óleos. Nos animais homeotermos ele causa intoxicação crônica, caracterizada por uma decomposição vagarosa. O DDT continua ativo no solo, até trinta anos depois de aplicado (calcula-se em mais de 1 milhão de toneladas de DDT presente no solo). Espalhado por todo mundo, já se constatou sua presença, em quantidades consideráveis, em mariscos, peixes, aves e focas do Mar do Norte e do Mar Báltico, bem como em aves, peixes e focas da região antártida, no extremo oposto do globo. O DDT, como outros inseticidas, é assimilado por organismos vegetais e animais que os armazenam sem sofrer as conseqüências letais dessa concentração. Através do ciclo alimentar dos animais e plantas, dá-se um enriquecimento dos elementos tóxicos que passam de um organismo para o outro, até que acaba se formando uma dose de efeito realmente letal. Como exemplo deste fato, podemos citar o clássico fenômeno de Clear Lake, na Califórnia:

O lago foi tratado com DDD (inseticida aparentado com o DDT) em 1949, 1954 e 1957 a fim de eliminar um mosquito inofensivo porque não pica, mas incômodo porque forma verdadeiras nuvens na vizinhança da água. O DDD foi espalhado em dose aparentemente fraca de 0,015 partes por milhão (ppm). Do meio líquido o produto concentrou-se no plâncton na proporção de 5 ppm, nos peixes vegetarianos comedores de plâncton uma quantidade ainda maior (de 40 a 1000 ppm), nos bagres que comem os pequenos peixes em quantidades de 350 a 2500 ppm e, finalmente, na extremidade da cadeia alimentar os mergulhões (Aechmophorus occidentalis) foram dizimados e seus efetivos passaram de, aproximadamente, 1.000 casais a 30 casais, aparentemente estéreis porque entre 1958 e 1963 foi visto apenas um único filhote no lago. Os pássaros mortos continham entre 1.500 e 2.500 ppm de DDD na gordura, o que o inseticida tinha sido concentrado mais de 100.000 vezes a aplicação inicial.

Concentração do inseticida DDD ao longo dos níveis tróficos do Clear Lake, Califórnia

Em 1969, o Departamento de Saúde de EEUU recomendou ao governo americano que proibisse a comercialização do DDT, pois várias pesquisas haviam revelado que esse pesticida podia ser responsável pela formação de tumores malignos no fígado e nos pulmões. Constatou-se também que o DDT pode provocar sérios distúrbios renais e hepáticos, além de graves alterações no sistema nervoso.

Proibido na Argentina, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Chipre, Hungria, Noruega, Dinamarca, Suécia, Japão, Taiwan, U.R.S.S., Alemanha Ocidental, estados Unidos, é criminoso que alguns desses governos permitem a exportação desses produtos para países em desenvolvimento da África, da Ásia e da América Latina.

O uso do DDT e de outros inseticidas em doses maciças resulta na diminuição de sua eficácia, pois vários insetos têm desenvolvido uma capacidade de resistência cada vez maior aos seus efeitos. Por essa razão, atualmente costuma-se aplicar um inseticida em combinação com outros. Na opinião de muitos cientistas, o único meio realmente eficaz de se combater as pragas que devastam as lavouras, sem criar graves ameaças à saúde humana seria a utilização sistemática e em larga escala de seus inimigos naturais (controladores biológicos). No Havaí, por exemplo, o principal agente exterminador dos besouros que atacam os canaviais é um sapo comum (Bufo marinus), criado pelos agricultores junto às plantações. A introdução de doenças dos insetos poderia dar igualmente bons resultados. Vários microorganismo, vírus, bactérias, fungos, ou mesmo nematóides, são susceptíveis de determinar doenças nos insetos. Outra maneira de controle, que deve ser mais pesquisado é a de introduzir machos esterilizados que entram em competição com os machos normais (esterilização por erradicação em laboratório ou produtos químicos esterilizantes misturados com iscas na natureza).

DIELDRIN: Clorado muito tóxico de grande persistência no solo (de 5 a 25 anos) e nas gorduras animais e vegetais, sendo muito perigoso para a fauna selvagem.

ENDRIN: com menor poder residual que o anterior, este inseticida requer os máximos cuidados quando de seu emprego, por ser violento desequilibrador do bio-ambiente, quando aplicado sem critério técnico.

BHC (hexaclorociclohexano): Composto clorado, sintetizado pela primeira vez em 1825 por Faraday, cujas propriedades inseticidas foram descobertas em 1943, junto com o DDT, é um dos mais usados no Brasil. Conforme pesquisa do Instituto Adolfo Lutz, São Paulo, o BHC é o inseticida que está presente com maior freqüência nos alimentos de origem vegetal consumidos pela população paulista.

Os alimentos contaminados por BHC geralmente apresentam um gosto semelhante a mofo.

Além dos clássicos inseticidas clorados já citados, existem outros muito usados, como o lindam, o chlordane, o dieldrin, o toxafene, heptacloro, endosulfan, strobane, etc.

- GRUPO DOS COMPOSTOS ORGANO-FOSFORADOS

São compostos derivados do éster do ácido fosfórico, distintos dos demais grupos por apresentar ação sistêmica e de profundidade, além da ação de contato, ingestão e fumigação.

Os princípios ativos fosforados agem como inibidores de um enzima denominada colinesterase, provocando sérias conseqüências nos organismo animais. O contato, ingestão ou aspiração de doses elevadas de organo-sintéticos, fosforados, provocam intoxicações agudas que ocasionam lesões nos órgãos mais afetados. Esse grupo inclui o paration, o malation, o fosfrin, o mevinphos, etc.

- GRUPO DOS COMPOSTOS ORGANO-CARBAMATOS

Estes inseticidas são derivados do ácido carbônico, possuindo compostos extremamente tóxicos.

A maioria age sobre insetos por contato e ingestão. Atualmente, surgem alguns de ação sistêmica. Segundo Cavero, Guerra e Silveira, as principais pragas da agricultura brasileira são controladas perfeitamente pelo uso destes inseticidas.

Dos inseticidas organo-sintéticos, este é o grupo que apresenta o menor período de carência e poder residual, sendo por isso, o mais recomendável ecologicamente. Os mais conhecidos são: o dimetam, o sevin, o isolam, o carbaril, o metomil, etc.

- B. HERBICIDAS

Os herbicidas têm sido utilizados ultimamente como um substituto das máquinas agrícolas no trabalho de suprimir um grande numero de "ervas daninhas" - termo que designa as plantas que invadem as culturas e competem com as plantas cultivadas - e, infelizmente, para uso militar como desfolhante.

Os herbicidas mais usados são os que derivam do ácido clorofenoxi (2,4-D, 2,4,5-T, picloram), análogos quimicamente ao ácido indolacético (auxina), uma substância que regula o desenvolvimento das plantas. Este hormônio controla o desenvolvimento de brotos, o crescimento de raízes, a predominância apical e fototropismo. Doses excessivas provocam um crescimento e metabolismo descontrolados, determinando a morte do vegetal.

A diferença de toxicidade em plantas de folhas largas (dicotiledoneas) em contraste com as de folhas estreitas (monocotiledoneas), se deve à maior facilidade com que os compostos são absorvidos.

Outros grupos, de menor importância, incluem as Triazinas Simétricas (simazina, fenuron, diuron e monuron) e as Uréias Substituídas. Essas duas classes de compostos inibem uma etapa importante da fotossíntese podendo-se dizer que as plantas "morrem de fome".

Podemos dizer, de um modo geral, que o abuso dos herbicidas pode provocar a rarefação de certas espécies e contribuir para a degradação de certos ambientes, uma vez que os herbicidas têm grande impacto sobre as populações de animais devido às modificações ou erradicações das plantas, já que todos os animais dependem delas para nutrir-se.

4.3.3.4 - O Desflorestamento

As florestas ocorrem desde regiões subárticas até os trópicos úmidos, oferecendo uma enorme coleção de habitats. As mais desenvolvidas e também mais vulneráveis, são as florestas pluviais tropicais, como as que ocorrem no Brasil, sendo elas o maior acontecimento biológico que existe na nossa época.

Segundo Kai Curry-Lindahl, entre as muitas funções ambientais das florestas, destacam-se as seguintes:

- "O papel climático, pela assimilação do dióxido de carbono, que purifica a atmosfera e produz oxigênio; fornece áreas de pouca refletividade e alta absorção de calor com baixa condutividade de calor; intercepta a umidade do ar e induz as precipitações; age como quebra-ventos e cria perturbações aerodinâmicas.

- "O papel hidrológico, por servir como divisor de águas, pela acumulação, limpeza, regulação e distribuição dos recursos hídricos; por impedir a sedimentação em lagos e represas.

- "O papel ecológico, pela preservação e formação de solos, pela manutenção de elementos básicos para a preservação de habitats; pela produção de alimentos e habitats para animais selvagens.

- "O papel econômico, pela produção de madeira, lenha e produtos químicos; por fornecer oportunidades de recreação; por funcionar como cinturão de proteção, aumentando, portanto, qualitativa e quantitativamente as plantações e criações; pela redução da poluição sonora.

- "Nas montanhas, as florestas têm muitas funções úteis adicionais, como a modificação ou proteção contra as massas de ar frio, ou os ventos que descem das zonas mais altas, assim como por quebrar e bloquear avalanches. Foi afirmado, (Vulterin, 1970) que o valor combinado das funções da floresta é quatro vezes mais alto do que a da madeira produzida."

Conforme o mesmo autor, os desflorestamento é acompanhado por muitos efeitos ambientais, dos quais os mais importantes são:

- "Modificações do microclima e clima (dependendo do tamanho da área desbastada).

- "Modificações nos ciclos hidrológicos e nos regimes de água, resultando na erosão das margens dos rios, sedimentação em rios, lagos e mares, enchentes prejudiciais, freqüentemente de caráter catastrófico; correntes e rios perenes tornam-se de regime torrencial ou secam inteiramente; declínio na qualidade da água; destruição ou modificações prejudiciais dos ecossistemas aquáticos em rios, pântanos e lagos, com efeitos negativos nas pescas.

- "Declínio ou extinção local de animais terrestres selvagens."

4.3.4 - Contaminação Radioativa

O homem está contentemente exposto à radiações, principalmente em nossa era, quando expõe-se seguidamente à raios X no uso médico e dentário para diagnose e terapia.

Como fontes de radiações, além de armas nucleares, podemos citar i uso de reatores nucleares para produção de energia elétrica. A energia nuclear libera elementos radioativos para o ambiente de diversas maneiras, como na mineração do combustível, nos processos de geração de energia, no transporte dos combustíveis já usados, e na armazenagem de resíduos radioativos (lixo atômico). Fora esses processos existe ainda a possibilidade de um acidente num complexo nuclear, que libertaria quantidades muito maiores da radioatividade.

O caminho percorrido pelo urânio desde a sua mineração até o instante em que deixa um reator nuclear, já consumido, se processa da seguinte maneira:

- inicialmente é extraído do minério em que é encontrado na natureza;

- em seguida é enriquecido por processos que fazem com que a porcentagem de U235 (isótopo responsável pela reação nuclear) aumente de 0,7% até mais de 3%, a quantidade mínima para a operação do reator;

- após o enriquecimento, a substância é transferida para outra usina, onde se processa a fabricação do combustível, ou seja, barras de óxido de urânio que por sua vez são transportadas para o reator;

- estas barras, em torno de 40 mil (100 toneladas) em uma usina nuclear típica, ficam no interior do reator, aproximadamente, três anos, durante os quais o U235 vai sendo consumido;

- depois de consumidas as barras de combustível, devido à produção de diversos subprodutos altamente radioativos e de manipulação muito perigosa, são mantidas durante meses no reator para que "esfriem";

- assim, a massa de resíduos é remetida para as usinas de reprocessamento, para recuperação do urânio 235 que restou e o plutônio 239 (subproduto) sendo ambos reutilizados no reator;

- o "lixo" nuclear restante, diversas toneladas de material radioativo, é de tal modo perigoso que deve ser mantido isolado do meio ambiente por centenas ou milhares de anos, ou seja, para sempre.

Caminho percorrido pelo urânio da mineração ao lixo atômico

As radiações, em geral, causam no homem tanto danos genéticos, acelerando a taxa de mutações com maior produção de descendentes anormais, como danos somáticos individuais, que produzem cânceres e abortos. Também causam danos ao longo das cadeias alimentares, uma vez que se noa um progressivo aumento das concentrações dos radioelementos, desde os produtores até os consumidores.

Germano SCHÜÜR/João Carlos SELBACH, Unisinos
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