Novas tecnologias:
solução contra a degradação ambiental
Entrevista concedida pelo biólogo Germano Schüür à revista Informativo Eberle em setembro de 1986.
Preocupados em colocar aos nossos leitores algumas informações sobre a Importância da preservação do meio ambiente e na intenção de provocar neles algumas reflexões, procuramos o biólogo e professor Germano Schüür, incansável batalhador desta área, e fizemos com ele uma rápida entrevista.
Desde seu ingresso no curso de História Natural no ano de 1970, Ecologia e Preservação Ambiental foram assuntos que sempre conclamaram o Professor Germano Schüür a um posicionamento ideológico. Esta atenção para com os problemas ambientais continuou interferindo em sua vida, o que o levou a fazer Pós-Graduação em Ecologia Humana na Universidade do Vale do Rio dos Sinos.
Hoje, além de lecionar a disciplina de Ciências do Ambiente nos cursos de Engenharia da Unisinos e da UCS, Zoologia e Equilíbrio Ecológico na Universidade de Caxias do Sul, o Professor Germano Schüür, com a colaboração do Professor João Carlos Selbach, publicou o livro "Ciências do Ambiente - Ecologia, uma obra especialmente dirigida a estudantes de Engenharia.
Apesar de ser natural de Cruz Alta, é Caxias do Sul a sua residência, e segundo o Professor Germano Schüür "é uma das raras cidades gaúchas cuja localização coincide com os escassos 2% de cobertura florestal autóctone do Rio Grande do Sul".
Informativo Eberle - Quais são os principais problemas ecológicos que aguardam o homem do futuro?
Schüür - Acredito que aqueles relacionados com a explosão demográfica e seus efeitos, ou seja, suprimento de alimentos, novas fontes de energia e preservação da qualidade da água, do ar e do solo. Convém lembrar que no ano 2000 o nosso pequeno planeta deverá hospedar quase o dobro da população atual.
Informativo Eberle - No seu modo de ver, a tecnologia que dirige os caminhos do Homem é capaz de responder a este desafio que se vislumbra no futuro?
Schüür - A sua colocação revela perfeitamente a realidade. É a tecnologia que tem dirigido os caminhos do Homem e não o inverso como deveria ser. Sabe-se que grande parte da tecnologia está voltada para a manutenção e para o aumento de uma eficiência econômica que visa sempre o crescimento de produção e até a criação de produtos inúteis que, na maioria das vezes, estão completamente desvinculados das reais necessidades humanas. Voltando à sua pergunta, confio na capacidade do Homem, desde que ele volte para si mesmo, ou seja, volte à única razão para-o desenvolvimento: o bem-estar humano.
Informativo Eberle - E como o Homem voltaria para si próprio ?
Schüür - Diariamente defrontamo-nos em jornais e revistas, ou mesmo na televisão, com os saques sobre o ar, a água, a paisagem, os recursos naturais, as ondas sonoras, enfim sobre todo o habitat humano, por tecnologias que não se preocupam com os custos sociais promovidos por sua irresponsabilidade. O Homem voltará a si próprio quando surgir uma nova filosofia tecnológica, na qual o crescimento industrial, em todos os seus aspectos, tenha de ser subordinado às considerações humanas e ecológicas. Qualquer projeto tecnológico que vise primordialmente o bem-estar humano, deve considerar o meio-ambiente como uma variável dependente e, constantemente, deve-se ter o cuidado de comparar os resultados com os objetivos propostos, ou seja, verificar se tal atividade tecnológica verdadeiramente tem favorecido a vida e as necessidades reais da personalidade humana. Com esta mentalidade, certamente, algumas tecnologias em voga seriam condenadas, outras questionadas e novas pesquisadas.
Informativo Eberle - Esta sua proposição não seria utopia ?
Schüür - De maneira nenhuma. Consciente ou inconscientemente toda a pessoa deseja a qualidade ambiental e sabe que a preservação desta qualidade é sinônimo de preservação de sua vida e a da própria espécie sobre o planeta Terra. Todos respondem ao brado de alerta ecológico, desde que ele seja dado.
Informativo Eberle - O Professor poderia citar alguns casos concretos e nossos de efetivação desta nova filosofia tecnológica ?
Schüür - Entre as muitas preocupações de nossas autoridades com o habitat brasileiro podemos citar o parecer n° 4807/75 do Egrégio Conselho Federal de Educação, onde a disciplina Ciências do Ambiente é incluída nos currículos mínimos dos cursos de Engenharia. O próprio Decreto n° 73.030 de 30 de outubro de 1973, que criou no âmbito do Ministério do Desenvolvimento Urbano e Meio-Ambiente a Secretaria Especial do Meio Ambiente é mais um exemplo que.merece destaque.
Informativo Eberle - De que maneira a inclusão da disciplana de Ciências do Ambiente nos cursos de engenharia iria interferir numa mudança de rumo da tecnologia ?
Schüür - Em suma, técnica é o modo de fazer as coisas. E justamente são os diversos cursos de engenharia que estão constantemente defrontando-se com todas formas de tecnologia: Assim, as novas gerações de engenheiros, nos mais –distintos campos de atividades, terão, além dos conhecimentos tecnológicos formais que caracterizam seu curso, uma preocupação com a preservação da qualidade ambiental.
Explosão demográfica, revolução industrial, poluiçao atmosférica por gases e por material particulado, as diferentes formas de poluição das águas, poluição do solo, contaminação radioativa, despejos industriais, preservação dos recursos naturais e não renováveis, são alguns dos muitos assuntos que ora estão sendo apresentados nas salas de aula de diversas universidades a todos engenheirandos brasileiros.
De todos espera-se uma definição ou posicionamento ecológico, já que profissionais ecologicamente bem informados, sem dúvida nenhuma, se constituem uma resistência à má exploração e ao mau uso do ambiente.
Informativo Eberle - A conscientização dos que lidam com técnicas basta para esta retomada de direção ?
Schüür - Infelizmente não. As tecnologias de produção estão subordinadas a outras atividades humanas como a política e a economia. Faz-se necessário, e com urgência, colocar em xeque muitos conceitos errôneos de desenvolvimento que têm dirigido os tecnocratas dos modelos econômicos.
Informativo Eberle - No seu entender, então, haveria também a necessidade da inclusão de conhecimentos de Ecologia e Preservação Ambiental em cursos que abrangem as áreas de Política e Economia?
Schüür - Correto. E à medida de que o tempo passa e o cerco de poluição se fecha, nós invariavelmente chegaremos lá.
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