Ecologia
Textos - Equilíbrio Ecológico
Prof. Germano Schüür


ECOLOGIA E A CRISE AMBIENTAL

O homem se defronta com uma crise ecológica. Esta crise evoluiu em conseqüência da má administração crescente do meio natural e do crescimento desenfreado das populações humanas. A crise não apenas ameaça suas chances de realizar um modelo de vida condizente com a presente população humana mas também suas possibilidades de continuar a existir como espécie.

Os sinais de ameaça da crise aparecem em problemas específicos, tais como o (a) desequilíbrio da produção de alimentos e do crescimento da população humana, (b) a redução da produtividade de vastas áreas de terra, (c) o mau uso e a poluição das águas, (d) a mudança gradual dos climas regionais e globais como resultado das atividades urbanas e das técnicas agrícolas, (e) a destruição de importantes espécies da fauna selvagem e a alteração das comunidades naturais e a (f) proliferação de organismos transmissores de doenças e epidemias. Estes problemas são sintomas de distúrbios de processos efetuados a nível de Biosfera como um todo, distúrbios esses capazes de reduzir a níveis mortais a qualidade e a produtividade do meio natural mundial. Por último, contribuem em grande escala para criar a instabilidade política do mundo moderno.

Muitos fatores de ordem cultural, econômica e histórica contribuíram para o surgimento destes problemas (White, 1967; Cole, 1970; Marx, 1970). Na origem, porém, está a exploração cada vez maior por parte do homem dos recursos naturais, sua ignorância das leis que regem os sistemas biológicos, a exploração incontrolada e a inabalável fé na tecnologia para resolver tais problemas que evoluem em proporções cada vez maiores.

A população humana atingiu um nível em que as exigências de recursos naturais requerem uma exploração maciça de todos os ambientes terrestres, fluviais e marítimos. A exploração de certos recursos alimentares tais como a pesca marítima (Borgstrom, 1970) está se aproximando de um nível máximo possível. Ao mesmo tempo, o homem mostra-se profundamente ignorante em relação aos fatores básicos responsáveis pela produção destes recursos e relativamente às conseqüências, a longo prazo, de seus métodos de exploração.

A tecnologia acarretou maiores problemas além dos da super exploração. As atividades agrícolas, industriais e urbanas tornaram-se agentes de padrões globais de poluição, alguns dos quais ameaçam os processos básicos da Biosfera. A tecnologia chegou a um ponto tal que novos desenvolvimentos podem levar a conseqüências prejudiciais, de caráter universal, antes que possam ser avaliados seus efeitos. (Commoner, 1966).

A Ecologia tem sido tradicionalmente definida como o ramo da Biologia que estuda os relacionamentos entre os organismos e seu ambiente. Porém, no contexto da evolução da crise ambiental, a ecologia torna-se algo mais, a "ciência da sobrevivência" . Para mostrar este aspecto e também a diversidade e complexidade dos efeitos ecológicos das atividades atuais do homem, vamos tomar um exemplo em particular. Este exemplo, apenas um entre os muitos que poderíamos escolher, tornou-se um caso clássico da ignorância ecológica e estreiteza de vista humana. Refere-se à Represa de Assuã, que foi concluída no rio Nilo, na República Árabe Unida (RAU) - Egito.

A Represa de Assuã

A economia inteira do Egito depende da ecologia do Nilo. O rio Nilo, o maior do mundo, entra no Egito pelo sul, arrastando água, limo e nutrientes das montanhas da Etiópia, 1.500 milhas ao sul. Corre em direção ao norte através do deserto de Saara, onde o índice pluviométrico anual vai de 10 polegadas até aproximadamente zero e, em seguida, deságua no Mar Mediterrâneo por um rico delta com cerca de 100 milhas de extensão.

O vale do rio Nilo, abrangendo cerca 1/3 da área total do Egito, constitui assim, o centro da agricultura e da população. A maioria dos 33 milhões de habitantes da RAU ali reside. Até a construção da Represa de Assuã, esta população dependia da produção agrícola de cerca de 6 milhões de acres da várzea do rio, aumentada por uma crescente atividade pesqueira no Mediterrâneo e pela importação de alimentos.

Historicamente, o modelo agrícola do vale do rio Nilo depende estreitamente do ciclo anual do rio. O seu curso é rigorosamente periódico. De agosto a novembro é o período das chuvas estacionais nas montanhas da Etiópia e, consequentemente, o período do volume máximo do Nilo. No baixo vale do Nilo é este um período de inundações de grande parte das terras planas das margens do rio. Embora esta inundação possa ser ocasionalmente prejudicial, é sobretudo benéfica. Supre de água o solo, arrasta os sais, e deposita uma nova camada de limo orgânico que age como fertilizante. Com efeito, esta inundação anual conservou o vale do Nilo como uma das áreas mais férteis do planeta, não obstante o cultivo ininterrupto por milhares de anos.

Os moradores do vale do Nilo nunca ignoraram sua dependência do rio, bem como das enchentes anuais que regavam grandes extensões de sua terra cultivada. As pressões duma população explosiva levaram a tentativa de expandir e intensificar a agricultura ao longo do Nilo, principalmente através do controle do rio por represas e pelo desvio das águas para a irrigação durante o ano. O Nilo, de fato, está represado em vários lugares. Em Assuã, ao sul, a represa elevada de Assuã é a quarta duma série que vem desde 1902.

A Represa de Assuã, planejada pelo Presidente Gamal Abdul Nasser e quase totalmente financiada por recursos externos da Rússia, visava, de uma vez por todas, modernizar a agricultura e possibilitar a industrialização da RAU. Destinava-se a acrescentar 1,3 milhões de acres à área de terra cultivada e possibilitar a colheita, durante todo o ano, de grande parte do solo cultivado. Tratava-se também de obter energia elétrica barata para acelerar a industrialização. Com estes resultados Nasser tinha a intenção de fazer da Represa de Assuã um monumento vivo de sua chefia frente a RAU.

A Represa de Assuã, a maior do mundo no gênero, foi concluída em 1970, depois de 11 anos de trabalho e ao custo de um bilhão de dólares. O Lago Nasser, formado pela represa, foi projetado para 310 milhas de comprimento e uma superfície de aproximadamente 2000 milhas quadradas. Destinava-se o lago a acumular 163 milhões de metros cúbicos de água - suficientes para proporcionar uma reserva de irrigação para um período de vários anos de baixo fluxo do rio (Sterling, 1971). Os 12 geradores da represa foram projetados para produzir anualmente 10 bilhões de quilowatts de energia elétrica.

Tudo isso foi planejado para permitir a recuperação das margens da represa em dois anos, e realizar a duplicação da economia nacional em 10 anos (Sterling, 1970). No estado atual e como tudo indica, parece que a Represa de Assuã vai tornar-se mais um monumento da ignorância humana a respeito dos efeitos ecológicos duma intervenção maciça sobre o ambiente natural. Sabe-se agora que a represa perturbou seriamente os relacionamentos ecológicos básicos, não apenas no baixo Vale do Nilo, mas também no Mar Mediterrâneo oriental. A natureza destes distúrbios demonstra claramente a necessidade do conhecimento dos princípios básicos da ecologia por parte de todas as pessoas responsáveis.

Os problemas específicos que ocorreram nesta área resultaram principalmente dos efeitos da represa sobre a qualidade da água, sobre a qualidade dos nutrientes e sobre o fornecimento de limo abaixo da represa. Um dos principais objetivos da represa foi assegurar abundante suprimento de água. A armazenagem de água acima da represa começou em 1964; a data marcada para encher o lago era 1970. Em começos de 1971, porém, o lago não estava coberto nem pela metade e cálculos recentes indicam que serão necessário entre 12 e 200 anos para completar o enchimento (Sterling, 1971).

O lento índice de enchimento é atribuído a dois fatores. Em primeiro lugar, foi calculado que as perdas anuais por infiltração subterrânea chegam a cerca de 15 bilhões de metros cúbicos, principalmente nos arenitos altamente porosos que formam toda a margem ocidental do lago. No começo esperava-se que o limo iria encher os poros destas rochas e compensar em pouco tempo as perdas. Agora, porém, consta que a maior parte do depósito sedimentar ocorre no centro do lago, ao longo do primitivo leito do rio, e que as perdas por infiltrações permanecem elevadas ao longo das margens ocidentais. Em segundo lugar, as perdas por evaporação tem sido mais altas do que se previa. É claro que se contava com elevadas perdas, já que a represa se localiza numa das regiões mais quentes e secas do mundo. A perda anual de 15 bilhões de metros cúbicos, agora calculada, está cerca de 50% acima das estimativas feitas durante o período de planejamento. Ao que parece, estes cálculos prévios erraram por não tomarem em conta a influência da ação dos ventos sobre a evaporação na superfície do lago. As perdas por infiltração e evaporação são aproximadamente iguais à descarga anual total do Nilo no Mediterrâneo antes da construção da represa. Deste modo a represa está perdendo a mesma água que se desejava preservar.

Contudo, os problemas nas áreas abaixo da represa ultrapassam de longe os aspectos de volume de água. Depois que a represa foi concluída, cerca de 700.000 acres de solo foram transformados de irrigados pelo rio em irrigados por canais, conquistando-se perto de 300.000 acres. Estas áreas podem agora ser cultivadas durante todo o ano. Embora tal medida tenha aumentado sensivelmente a produção agrícola, originaram-se alguns problemas sérios. Primeiro: nas áreas não ocorre mais nenhuma deposição de limo durante o período das cheias. Quase todo o limo do Nilo é agora depositado no fundo do Lago Nasser . Em conseqüência, aumentou a necessidade de fertilizantes artificiais para os solos irrigados. Porém o uso maior de fertilizantes não iguala a fertilização feita pelo limo, o que afeta, tanto a quantidade quanto a qualidade das colheitas.

Além disto, as águas das cheias, antes serviam para lavar o solo dos sais, sobretudo na área do delta, já que eram os principais solos abertos as inundações. Nestes solos, o movimento capilar da água sobre a superfície da terra serve para transportar e concentrar os sais provindos das camadas mais profundas do solo. Esta ação de "limpeza" já não ocorre, e grandes áreas de terra irrigada, tanto no delta como nas regiões superiores do vale, sofrem aumento da salinidade. Calculou-se que grande parte deste solo vai tornar-se rapidamente imprestável se não forem tomadas medidas preventivas, no valor de no mínimo um bilhão de dólares (Sterling, 1971).

Um terceiro problema, relacionado com o volume reduzido de limo nas águas abaixo da represa, é a erosão das margens do rio, dos canais e do delta. A água desprovida de limo abaixo da represa, aumenta sua correnteza e procura adquirir sua carga normal de limo. A erosão resultante ameaça minar os fundamentos das três represas e das 550 pontes entre a represa de Assuã e o mar Mediterrâneo. Um projeto conhecido como a "Cascata do Nilo" foi proposto para reduzir a erosão. Este projeto inclui a construção de 10 novos diques para diminuir o fluxo do rio, e custará cerca de 250 milhões de dólares. A linha costeira do delta, protegida antes pelo depósito de milhões de toneladas de limo, está agora recuando - em algumas áreas à razão de várias jardas por ano (1 jarda = 914 mm).

Além disso tudo, a expansão da irrigação por canais aumentou a incidência de algumas doenças, entre elas a esquistossomose, a malária e o tracoma, que são transmitidos por invertebrados aquáticos (Wagner, 1971). A esquistossomose é uma verminose causada por vermes trematodos parasitas (Schistoma haematobium e Schistosoma mansoni). Estes parasitas possuem ciclos vitais alternando entre homem e diversas espécies de caramujos pulmonados de água doce. O parasita contamina o homem no estágio de cercária. Cercárias são formas diminutas, livres, que são liberadas pelos caramujos e que podem prender-se e penetrar na pele das pessoas que entram na água. No interior do corpo humano, as cercárias penetram pelos vasos da bexiga, do reto e dos intestinos. Mostram especial preferência pelo sistema porta que leva o sangue do intestino ao fígado. Ali, depois de alguns meses tornam-se adultas, com mais de 2 cm de comprimento. Os ovos destes vermes adultos saem do corpo humano através da urina e das fezes, e se alcançam água doce, nascem como miracídios minúsculos e ciliados, capazes de infestar caramujos aquáticos.

A esquistossomose não é ordinariamente fatal ao homem, mas é uma doença debilitante. Nos casos crônicos, o homem se torna fraco e magro, com o abdome cheio de líquido e inchado, indicando a circulação deficiente do sistema venoso intestinal. A esquistossomose foi sempre uma doença comum no Vale do Nilo. Antes da construção da Represa de Assuã, sua incidência era estimada em cerca de 47%. Com a construção de sistemas de irrigação permanente, porém, aumentou muito a incidência. Ocorreu isso porque os caramujos de água doce se espalharam dentro das valas de irrigação permanente. Outrora, estes caramujos eram exterminados pela secagem periódica das valetas e dos açudes. Lá onde se deu esta expansão, a incidência de esquistossomose passou de um índice quase zero a aproximadamente 80% (Sterling, 1971). O aumento da esquistossomose acrescentou alguns milhões de novos casos ao lastro de uma doença que já estava exigindo um gasto econômico da ordem de aproximadamente 56 milhões de dólares/ano (Bernarde, 1970). Estas mesmas valetas de irrigação também estão proporcionando áreas de criação para mosquitos da malária Anopheles sp) e para uma mosca que transmite o tracoma (Wagner, 1971).

A influência da Represa de Assuã não se restringe às fronteiras do Egito. Antes da construção da represa, uma média de 30 bilhões de metros cúbicos de água de inundação, carregada de limo, eram anualmente carregados para o Mar Mediterrâneo. Esta descarga ocorria tão somente durante o período das cheias, enquanto que, nos demais períodos, diques temporários de terra fechavam os dois maiores desaguadouros do Nilo. Estes diques permitiam a irrigação de grandes extensões de terras do delta. Quando a enchente começava a atingir o delta, abria-se, primeiro um, depois o outro dique (Oren, 1969).

A descarga do Nilo influenciava toda a ecologia do Mediterrâneo oriental. A salinidade foi claramente afetada numa extensão de 600 milhas de águas continentais, desde o delta até o Líbano, em direção leste. Reduções de salinidade de mais de 25% foram registradas na costa de Israel (Oren, 1969). Formações de fitoplâncton e zooplâncton ocorriam no período de descarga do Nilo (Oren, 1969). Estas formações, na maioria das vezes, eram certamente conseqüência do acréscimo de nutrientes vindos pelo rio.

Que este efeito era também fator importante na ecologia das espécies de peixes, evidenciou-se por declínio imediato da captura de pescado após o fechamento da Represa de Assuã. Em 1964, último ano em que as águas das cheia atingiram o mar, a captura total de pescado por barcos do Egito era de 135 mil toneladas. Em 1967 desceu para 85 mil toneladas (Anon, 1970). Antes de 1965, só a captura de sardinhas atingia uma média de 15 mil toneladas/ano. Em 1968 caiu para 500 toneladas e, em 1971, informou-se que a captura da sardinhas desaparecera por completo (Mayhew, 1971). Ainda que esteja prevista a pesca em águas doces do Lago Nasser, calcula-se o suprimento apenas de 12 mil toneladas, quando em plena atividade (Wagner, 1971). A perda destas capturas no mar constitui um sério problema para o povo do Egito - país em que o consumo per capita de proteínas atinge somente 10 Kg por ano (Anon, 1970).

O prognóstico e a solução de tais problemas requer sem dúvida, um conhecimento dos relacionamentos ecológicos em vários níveis de complexidade. Exige o conhecimento de como os fatores ambientais atuam para controlar a distribuição de determinadas espécies particulares, tais como os vetores da esquistossomose e da malária. Requer o conhecimento das interações dinâmicas dentro e entre as populações de diferentes espécies, por exemplo do homem, dos esquistossomas e dos caramujos aquáticos. Exige um conhecimento da dinâmica de agrupamentos complexos, tais como de fitoplâncton, zooplâncton e peixes do leste do Mediterrâneo. De mais a mais, requer uma apreciação dos padrões de acúmulo e do ciclo dos nutrientes, sais e minerais do solo, e uma apreciação de como eles controlam a fertilidade básica das terras e das águas do Vale do Nilo. A Represa de Assuã é apenas um exemplo do grau em que a tecnologia humana está atualmente modificando o meio natural.


COLLIER, Dynamic Ecology, Prentice-Hall, 1973


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